13.11.09

a
a
Sonias de um Amado de verão
a
Era 1975 e todo mundo da imprensa estava na coletiva, representantes dos principais jornais e revistas do País inteiro. Também, não era para menos. A Rede Globo estava prestes a anunciar uma das parcerias mais bem sucedidas entre teledramaturgia e literatura da sua história, a adaptação do romance "Gabriela, cravo e canela", de Jorge Amado, para a TV.
a
O autor chegou ao recinto e os jornalistas não perderam tempo. De quanto tinha sido a negociação? Quem ia dirigir a novela? Amado participaria do roteiro? Etc. etc. etc.
a
Tudo corria dentro do previsto até o escritor botou as manguinhas de fora e chocou os presentes. Foi quando perguntaram se ele havia feito alguma exigência à emissora. Sim, que a atriz Sônia Braga vivesse a protagonista. "Por quê ela?", questionaram os repórteres. "O motivo é simples: somos amantes", respondeu calmamente JA.
a
Ãhn?
a
A surpresa foi inevitável. Desde 1945, Jorge Amado era casado com Zélia Gattai e jamais tinha sido pego em flagrante com outra mulher. E agora, do nada, ele declarava viver um romance com uma das atrizes mais promissoras e sensuais da época. Como ninguém soubera disso antes?
a
A tensão foi crescendo até que, pouco depois, Sônia Braga chegou ao evento. O clima ficou estranhíssimo. Muitos estavam constrangidos, outros excitados com o escândalo súbito. Foi quando Jorge Amado levantou e, de maneira formal, cumprimentou a moça. "Muito prazer, encantado".
a
Os dois se encontraram pela primeira vez ali e o suposto caso nada mais era que mais uma piada de última hora de Amado, dono de um bom humor desarmante. Quem é que pode com um entrevistado desses?
a
Seja como for, ele estava certo na preferência. Em "Gabriela", Sônia Braga protagonizou uma das cenas mais antológicas da TV, quando teve que subir num telhado para "resgatar" uma pipa, enquanto a população da pequena Ilhéus dos anos 1920 acompanhava, em polvorosa. As imagens ainda hoje estão entre as mais lembradas e festadas pelo público, que reconheceu na beleza cabocla, pobre e com um quê de ingenuidade interiorana a sensualidade típica da mulher brasileira.
a
A novela foi reprisada quatro vezes pela Rede Globo e foi a primeira telenovela brasileira a ser exibida em Portugal, onde também fez muito sucesso.
a
a
Fontes: Revista Isto É
aaaaaaaWikipedia
a
a
No episódio de hoje:
a

Jorge Leal Amado de Faria (1912-2001) é o segundo brasileiro que mais publicou livros no exterior, ele só perde para Paulo Coelho (aaaaargh). A maioria das 36 obras de Amado ganhou versões em 49 idiomas, mais o braille. Há também fitas e CDs para o público com deficiência visual acompanhar a leitura em voz alta dos textos. Entre os livros, destacam-se "Capitães da areia", "Mar Morto", "Jubiabá", "Tieta do agreste", "Tocaia grande", dentre outros. Na foto, com sua verdadeira musa, Zélia Gattai.
a

Sônia (Maria Campos) Braga nasceu em 1950 e estreou no teatro como a protagonista da versão brasileira de "Hair", aos 18 anos. Na televisão, viveu papéis importantes em "Gabriela" e "Dancin' Days". Lançou-se como estrela do cinema brasileiro e norte-americano, conquistando prêmios internacionais pelas perfomances em "Dona Flor e seus dois maridos", "Eu te amo", "A dama do lotação", "Luar sobre Parador", "O beijo da mulher-aranha", "Amazônia em chamas", dentre outros. Também participou das séries "Sexy and the city", "The Cosby Show", "Law&Order", "Alias", "CSI: Miami" e "American Family", só para citar algumas.
a
"Tigresa" e "Trem das Cores" são composições que Caetano Veloso declarou terem sido feitas para Sônia.
a

"Gabriela, cravo e canela" é um romance de Jorge Amado, publicado pela primeira vez em 1958. A trama retrata a cultura cacaueira, recheada de coroneis, prostitutas, jabunços e figuras pitorescas do Nordeste brasileiro. O livro é ambientado em Ilhéus, nos anos 1920 e inspirou duas telenovelas (TV Tupi e Globo), um filme de Bruno Barreto (com Sônia Braga e Marcello Mastroianni), um espetáculo de dança encenado pelo corpo de baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, uma fotonovela da Revista Amiga e uma história em quadrinhos da editora Brasil-América.
a
. . . . .
a

9.11.09

a
a
Amélia foi mesmo uma mulher de verdade
a
a
"Almeidinha" era o nome da fonte.
a
Adoro esses apelidos derivados de sobrenomes. Não dá para imaginar um executivo sisudo chamado de "Almeidinha", dá? A gente pensa logo em um daqueles personagens impagáveis de Nelson Rodrigues, de bigodinho infame, funcionário público burocrata, traído pela esposa depois do almoço.
a
Pois é. Mas o nosso Almeidinha era baterista e irmão da não menos inigualável Araci de Almeida. Ela foi a segunda maior intérprete de samba dos anos 30, ficando atrás apenas de Carmem Miranda. Entretanto é mais lembrada pelas novas gerações como a jurada mais mal humorada do "Show de Calouros", aquele programa medonho do Sílvio Santos que as avós assistiam religiosamente. Só para refrescar a sua memória:
a

a
Tá, eu não vou mentir: me acabei de rir com essa frase ridícula que puseram na imagem.
aa
Bom, o Almeidinha era uma figura. Toda vez que o papo entre amigos abordava o tópico "saias" e ele ouvia falar sobre algum caso amoroso malfadado, culpava a moça e soltava a mesma máxima: "Amélia é que era mulher! Amélia é que lavava, passava..."
a
"Ih! Ela também bordava, chuleava, tricotava...", acrescentava um dos camaradas de barzinho, o Mário, tirando sarro do Almeidinha.
a
Mas o X da questão é que o Mário não era aquele do armário, era simplesmente o Mário Lago, compositor de sambas e marchinhas de carnaval lembradas até hoje. Rapidinho, ele vislumbrou ali um tema e tanto. Papel e caneta em mãos, Lago inventou a história de um sujeito que lamenta o casamento atual, comparando a nova esposa - fútil, exigente e egoísta - com a ex, mulher idealizada, que deixava a vaidade e as vontades de lado em prol do marido.
a
A letra foi musicada por outro peso-pesado da música dos anos 40, Ataulfo Alves. Mas o resultado não agradou muito Lago. Para adequar o texto à melodia, Ataulfo precisou mudar certos termos e aumentou de doze para quatorze o número versos. Mas o ritmo era tão contagiante, que Mário acatou as alterações.
a
E sabe quem quis gravá-la?
a
Ninguém.
a
Isso mesmo. Todos os grandes intérpretes da época acharam que a canção não emplacaria e disseram um sonoro "não" para os compositores. Coube ao próprio Ataulfo a tarefa de registrar a novidade. Ele reuniu uma bandinha improvisada em estúdio, com a particição do grande Jacó do Bandolim.
a
O resultado foi um estouro. Entoada há décadas, a música acabou por transformar "Amélia" também em adjetivo registrado no Aurélio. Pode ir lá, você vai ler que o termo designa "mulher que aceita toda sorte de privações e/ou vexames sem reclamar, por amor a seu homem", é sinônimo de passividade.
a
Porém, anos depois, Mário Lago declarou que Amélia era, digamos, mais um estado de espírito que uma determinação de gênero. "Amélia é qualquer pessoa apaixonada, seja homem ou mulher", afirmou à jornalista Rosane Queiroz.
a
Tá Mário, em tempos "politicamente corretos", a gente até entende essa saída pela tangente... (como diria meu ídolo, o Pernalonga, ele devia ter virado à esquerda em Albuquerque).
a
Mas o importante para nós que é a Amélia realmente existiu e foi "revelada" em uma matéria da revista "O Cruzeiro".
a
Ela era, na verdade, uma ex-lavadeira da família de Almeidinha e Araci. Vivia numa região suburbana do Rio de Janeiro e criava sozinha oito filhos, com muita força de vontade. E dizem que sem reclamar.
a
Consta que Mário Lago jamais a conheceu pessoalmente, porém sua fama de dedicação ilimitada o conquistou. "Ela era capaz de fazer qualquer sacrifício por sua família ou por qualquer pessoa que a ela recorresse. Tinha bom humor e não se aborrecia com as trapaças e dissabores da vida", afirmou.
a
Eu não sei você, mas eu curto a melodia e, para conferir que realmente todo mundo canta junto "Ai que saudades da Amélia", basta clicar no link a seguir. As imagens são de um show da Roberta Sá:
a
http://www.youtube.com/watch?v=z-dxr7w33jw&feature=related
a
A
Fontes: Rosane Queiroz
aaaaaaiDagoberto Romero Donato
aaaaaaiDárcio Fragoso
aaaaaaicarosouvintes.org.br
aaaaaaiwikipedia
a
a
No capítulo de hoje:
a

Mário Lago (1911-2002) formou-se em Direito mas cedo adotou a carreira artística. Foi poeta, escritor, letrista, ator, radialista e ativista político. Trabalhou em 53 obras de teledramaturgia e 33 filmes. Publicou três livros e foi tema da biografia "Mário Lago: boêmia e política", de Mônica Velloso, em 1998. Três anos depois foi homenageado por meio do desfile da escola de samba Acadêmicos de Santa Cruz.
a
Bônus
a
Descobri que no filme "Noel, Poeta da Vila", de Ricardo van Steen, Mário Lago é vivido pelo Supla. Desde então, tô doida para ver essa comédia. Quero dizer, obra.
a

Ataulfo Alves (1909-1969) foi leiteiro, condutor de bois, carregador de malas, menino de recados, engraxate, marceneiro, lavrador, ajudante de farmácia, compositor e cantor. Foi diretor do bloco de carnaval "Fale quem quiser" e criou quase 350 canções. Grandes intérpretes da música brasileira gravaram as composições de Ataulfo Alves. "Na cadência do samba", que ele escreveu com Paulo Gesta, é um dos meus sambas favoritos.
a
. . . . .
a

3.11.09

a
Bebês Titãsa

Tem muita gente que não se conforma com o "erro de português" na música, mas o compositor já declarou a total intencionalidade da letra. Um dos criadores mais atuantes da poesia contemporânea brasileira, Arnaldo Antunes é fã confesso das inovações conscientes na produção artística e nunca viu problema algum em ter escrito "Beija eu", em parceria com Marisa Monte e Arto Lindsay.
a
A explicação para a "escorregada" na ênclise é simples e convincente (pelo menos para mim). Pai de quatro filhos - Rosa, Celeste, Brás e Tomé - Antunes sempre apostou no olhar "virgem" da criança, na capacidade infantil de realizar associações mais livres que os adultos. Isso inclui a construção gramatical. "Beija-me" é calmamente substituído pelo extremamente lógico "beija eu", típico das gracinhas entre dois e quatro anos.
a
Assim, o amor descrito na canção assume um tom pueril e o pedido do beijo ganha uma "franqueza gramatical" deliciosa. Ora, se o próprio Arnaldo declarou ter usado frases inteiras formuladas pelos filhos, quem sou para corrigir o que já parece perfeito? Como diz a letra, "aceita o que seja seu".
a
a
Seja eu! Seja eu!
Deixa que eu seja eu
E aceita
O que seja seu
Então deita e aceita eu...
a
Molha eu! Seca eu!
Deixa que eu seja o céu
E receba
O que seja seu
Anoiteça e amanheça eu...
a
Beija eu! Beija eu!
Beija eu, me beija
Deixa
O que seja ser...
a
Então beba e receba
Meu corpo no seu
Corpo eu, no meu corpo
Deixa!Eu me deixo
Anoiteça e amanheça...
a
a
Fontes: arnaldoantunes.com.br
aaaaaaawikipedia
a
a
Hoje, em O Fio e a Meada:
a

Perdão pelo vocabulário, mas Arnaldo Antunes é totalmente do caralho (até rimou). Nascido em 1960, ele tornou-se compositor, cantor, escritor, poeta e artista visual. Gravou sete discos ainda nos Titãs (na melhor fase da banda), nove em carreira solo e um com os Tribalistas. Lançou também 14 livros, incluindo um que eu paquero há tempos, "Frases do Tomé aos Três Anos", de 2006.
a

Você encontra "Beija eu" no CD "Mais", de 1991, da Marisa Monte (uma das compositoras da música). Ela também gravou a canção em "Barulhinho Bom", de 1996.
a
. . . . .
a

30.10.09

a
aaaa
"Depois das rajadas de tempestade,
colaremos nas retinas úmidas os últimos retalhos de azul"
a
(Patrícia Galvão)
a
a
a
"Pagu" para ver - P(arte) 3
a
Quando terminamos a parte dois, mencionei que Pagu seria presa mais de vinte vezes ao longo da vida. Em muitas dessas ocasiões, a polícia extrapolou completamente os limites de civilidade e submeteu a jornalista à tortura. Patrícia chegou ao ponto de ser internada em um hospital psquiátrico após uma das detenções, tal o estado de debilidade física e emocional após o "jeitinho" light e gentil dos investigadores. Lembrando que, na época, o tratamento médico era à base de choques elétricos...
a
Na prisão, Pagu estreita os laços com Geraldo Ferraz, jornalista e ativista político que também participou da Semana de Arte Moderna. Várias discussões sobre "O Capital" depois, surge um romance e Pagu encontraria em Geraldo o companheiro que precisava para seguir na luta e na vida. Em 1941, eles tiveram um filho, que ganhou o nome do pai.
a
Mas vocês acreditam realmente que Patrícia ia ficar quietinha, em casa, trocando fraldas? Nem a pau, Juvenal.
a
A moçoila aproveitou a ocasião para rodar a baiana com o Partido Comunista. No que tinha toda razão, diga-se de passagem. O partidão resolveu porque resolveu apoiar a didatura stalinista na Rússia e Pagu não tinha passado tantos maus bocados para apoiar um chefe absolutista. Ah, mas não mesmo. A desilusão dela com os camaradas de Moscou tinha começado naquela viagem de volta ao mundo, iniciada em 1931. Na ocasião, ela mandou um postal para Oswald em que declarava, categórica: "Isto aqui é jantar frio sem fantasia. Tou besta".
a
Além do mais, o PC era careta até o última nota do hino e condenava rispidamente as posturas liberais de Pagu. Era areia demais para o caminhãozinho deles. Juntando tudo isso, o resultado foi que ela chutou o pau da barraca e as canelas de muita gente, sem clemência, deixando o comunas a ver navios.
a
Equanto isso, na Sala de Justiça, Patrícia publica seu segundo romance, "A Famosa Revista", em parceria com o marido, novamente com temática social. Depois escreve para o suplemento literário do jornal O Diário de São Paulo, torna-se crítica de arte e produz o manifesto "Verdade e Liberdade". Pagu cria também contos policiais para a revista Detective (com direção luxuosa de Nelson Rodrigues) e tenta eleger-se para a Assembléia Legislativa de São Paulo pelo Partido Socialista Brasileiro, mas sem sucesso.
a
Crianças, essa mulher não parava. Nos anos 1950, ela descobre uma nova paixão: o teatro. Pagu entra para a Escola de Arte Dramática e bota a mão na massa. Ela é responsável pela tradução e montagem de textos estrangeiros importantes, inclusive de James Joyce. Um bom exemplo é a a peça "Fando e Lis", considerada a estréia mundial do famosíssimo dramaturgo espanhol Fernando Arrabal.
a
Aliás, Pagu tinha mesmo um pé no mapa mundi. Em "Antologia da Literatura Estrangeira", ela traduz pela primeira vez no Brasil grandes autores da poesia e da prosa internacionais. Em Santos, cidade que cativou seu coração desde os tempos do falso casamento armado por Oswald, Patrícia arregaçou as mangas e quis fazer do lugar um ativo centro de produção cultural.
a
Porém, um desafio se impôs na vida de Pagu, muito mais cruel que o Partido Comunista, que a polícia e que os conservadores juntos. O câncer.
a
Ao descobrir a doença, ela viaja a Paris, em busca de uma cirurgia salvadora, mas suas expectativas são frustradas pela dura realidade. Nossa heroína chega às raias do desespero e tenta o suicídio, que também não dá certo. O jeito era mesmo enfrentar a doença.
a
De volta ao Brasil, ela ainda tem tempo de encontrar-se com Jean-Paul Sartre e Eugéne Ionesco, em São Paulo e no Rio, além de traduzir e dirigir a peça "A Filha de Rappaccini", de Octavio Paz, em Santos. É então que o destino sentencia o encerramento do espetáculo.
a
Como você e eu sabemos, no fim, toda boa história deixa um gosto de quero mais. Pagu falece em 1962, com apenas 52 anos, deixando ainda uma porção de coisas por realizar e curtir.
a
a
Legado
a
"Parque Industrial" foi publicado também nos Estados Unidos, em 1994, pela editora da Universidade de Nebrasca. A "Famosa Revista" (1945) permanece fora das prateleiras atuais. Já os contos policiais que Patrícia escreveu para a Detectiva, foram publicados em 1998, sob o título "Safra Macabra".
a
No pagu.com.br, existem alguns exemplares das centenas de textos que ela publicou em jornais e revistas em mais de três décadas dedicadas ao jornalismo. É muito interessante para que estudantes, jornalistas e curiosos em geral saquem o estilo da época e de Pagu, em especial.
a
Há cinco anos, foi aberta uma exposição de desenhos e lançado o livro "O caderno de croquis de Pagu e outros momentos felizes que foram devorados", reunindo 22 peças da produção gráfica da jornalista, concebidas entre 1929 e 1930. A maioria com legendas escritas à mão pela própria Patrícia.
a
Porém, mais do que isso, lembremos que este fio da meada tem como marcador o termo "musa" (confira no final). Eis que nos resta agora fazer um inventário não só do que Pagu produziu, mas também do que ela inspirou. É tanta coisa que até fiz uma listinha para facilitar a leitura. Estão diretamente relacionadas à Pagu as seguintes obras, agrupadas por categoria:
a
Música
a
* "Pagu", de Rita Lee e Zélia Duncan. Particularmente, gosto bastante da letra. Ela não conta a história de Patrícia Galvão, mas expressa irreverência, força e insubmissão femininas muito características de PG. O bacana também é que as referências da canção são absolutamente contemporâneas. Confira em
http://www.youtube.com/watch?v=5CK620UTg5o.
a
* Criado em 2004, o Trio Pagu é um grupo que reinterpreta clássicos da bossa nova e da MPB, bem como apresenta composições inéditas, de autoria própria.
a
Livros
a
* "Romance da época anarquista" ou "Livro das horas de Pagu que são minhas", de Oswald de Andrade com/para Patrícia.
a
* "Pagu vida-obra" (1982), de autoria de Augusto de Campos. Editora Brasiliense.
a
* "Pagu: Patrícia Galvão" (1999), escrito por Lúcia Teixeira. Editora Unisanta.
a
* "Paixão Pagu: a autobiografia precoce de Patrícia Galvão", de Stella Cameron. Editora Agir.
a
* "Geraldo Ferraz e Patricia Galvão" (2005), obra de Juliana Neves. Editora Annablume.
a
* No livro "Moscouzinha" brasileira: cenários e personagens do cotidiano operário de Santos" (2007), de Rodrigo Rodrigues Tavares, Pagu está entre os personagens de destaque. Editora Humanitas.
a
* Também há várias outras obras literárias em que Pagu é citada, porém como personagem secundária.
a
Filmes
a
* "Eternamente Pagu", de 1987, com direção de Norma Bengell. Patrícia foi vivida por Carla Camurati.
a
* Vídeo-documentário "Pagu, Livre na Imaginação, no Espaço e no Tempo" (2001), com direção de Rudá de Andrade.
a
* Documentário "Eh, Pagu!, Eh!" (1982), de Ivo Branco.
a
* "O Homem do Pau Brasil" (1982), de Joaquim Pedro de Andrade, trata da vida de Oswald de Andrade. Pagu, claro, está lá.
a
TV
a
* A minissérie "Um Só Coração", da Rede Globo, retratou os principais artífices do movimento modernista da década de 1920. Miriam Freeland interpretou a jovem Patrícia Galvão.
a
Instituto
a
* O Instituto Patrícia Galvão é uma organização não-governamental criada em 2001, em São Paulo, por um grupo de feministas, com o objetivo de desenvolver projetos que divulguem e defendam os direitos da mulher, sobretudo através da utilização dos meios de comunicação de massa.
a
Centro de Estudos
a
* O Centro Unisanta de Estudos Pagu (CEP) é ligado à Universidade Santa Cecília e tem a meta de tornar-se um espaço de fomento à cultura e de preservação da memória de Patrícia Galvão. Promove exposições e lançamentos de obras literárias sobre a musa.
a
Revista Acadêmica
a
* "Cadernos Pagu" é uma revista semestral do Núcleo de Estudos de Gênero da Unicamp, que visa à consolidação dos estudos de gênero. O primeiro número saiu em 1993.
a
Desenhos e pinturas
a
* De autoria de nada menos nada menos que Cândido Portinari.
a
Desfile de escola de samba
a
* A mais antiga escola de samba de São Paulo, a X-9, levou ao sambódromo desfile com enredo inspirado em Pagu, em 2006.
a
Programação comemorativa
a
* Por ocasião do aniversário de 95 de nascimento de Pagu, a Prefeitura de São Paulo e parceiros promoveram o lançamento de livros, exposições de fotos, desenhos e textos de Patrícia Galvão. Um peça teatral sobre a vida dela também foi encenada.
a
Moda
a
* A "Dasdores" criou uma linha de produtos têxteis com estampas inspiradas no caderno de croquis de Pagu (http://coisasdasdores.blogspot.com/2008/07/da-pagu.html).
a
* O bazar e brechó Arcoverde disponibiliza jóias com imagens de Patrícia, como camafeus, pertencentes à linha "Mulheres que nos inspiram" (http://lovingbags.com/).
a
Festa
a
* Em 2005, o Museu da Imagem e do Som de São Paulo sediou uma festa a fantasia, em que os convidados tinham de vestir roupas das décadas de 1910, 1920 ou 1930, em homenagem à Pagu.
a
PS: Devido ao grande volume, não foi possível identificar quantas poesias e trabalhos acadêmicos foram produzidos sobre Patrícia Galvão.
a
Fontes: Paulo Celso da Silva em "Oswald de Andrade e Patrícia Galvão: dois corações e uma revolução"
aaaaaaiMaria Isabel Pereira
aaaaaaipagu.com.br
aaaaaaitarsiladoamaral.com.br
aaaaaaiWikipédia
aaaaaaiInstituto Patrícia Galvão
aaaaaaiUniversidade Santa Cecília (Unisanta)
aaaaaaiUnicamp
aaaaaaiRevista Speculum
a
No episódio de hoje
a

Pagu, imortalizada por Portinari, em quadro de 1933.
a

Geraldo Ferraz foi escritor, jornalista e crítico literário. Trabalhou em grandes periódicos de São Paulo e fundou os jornais "O Homem Livre", "Vanguarda Socialista" e "Correio da Tarde". Publicou quatro livros, com destaque para Doramundo (1954), que ganhou uma premiada versão para o cinema pelas mãos de Joaquim Pedro de Andrade.
a

Geraldo Galvão Ferraz é o segundo filho de Patrícia Galvão. Ele também é jornalista e crítico literário. Atualmente coordena o Centro de Estudos e Documentação Pagu da Universidade Santa Cecília (Unisanta), em Santos
a
. . . . .
a

27.10.09

a
Fomos citados no Universo Bloguístico!
Ho-ho-ho!
a
A responsável pela "condecoração" é a Isa Lorena, jornalista talentosa e antenada, que elege e recomenda os blogs mais maneiros. Inclusive...este. Acreditem muuuuuita gente boa já foi citada no UB, vale sempre a pena conferir as indicações.
a
Nossos mais sinceros agradecimentos.
a
z
Ass: Os Fios
a
. . . . .
a

26.10.09

a
O Oswald de Andrade era um canalha.
a
Entendam, eu gosto dele. OA foi um autor excepcional, um crítico perspicaz, um provocador nato e um ensaista interessante. Olha que eu nem falei ainda do trabalho dele como dramaturgo, caraca, ele foi o autor de O Rei da Vela.
a
Mas nada disso escamoteia a verdade inglória. Ele era um canalha.
a
Acompanhe a continuação da nossa história e veja se eu não tenho razão.
a
a
"Pagu" para ver ................*P(arte) 2*
a
Patrícia Galvão, a Pagu, de patricinha não tinha nada. Aos 15 anos, ela já trabalhava como cartunista de um jornal paulistano e, logo depois, iniciou a carreira como redatora. De boa família e atrevida como ela só, não demorou muito para conseguir uma cadeira cativa entre os descolados da época. E os descolados, caríssimos, eram os modernistas da semana de 22, incluindo o casal Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade. Os dois produziram alguns dos pilares do movimento e ajudaram a mudar as feições da produção artística brasileira. Foi então que apareceu na vida deles o furacão Pagu.
a
Claro que Oswald, admirador assumido do feminino, não ficaria imune aos encantos da jovem sedutora. Mesmo tendo vinte anos a mais que Pagu, Oswald voltou à adolescência e pôs pra fora toda sua porção Romeu.
a
O problema é que havia uma Tarsila no meio do caminho. No meio do caminho, havia uma Tarsila.
a
O que é que qualquer sujeito razoável faria? Terminaria tudo com a esposa, contando a sobre a nova paixão imediatamente ou não (essa é sempre uma dúvida atroz) e depois tentaria a sorte com Pagu.
a
Mas acontece que Oswald era um canalha e canalhas são um caso à parte.
a
Primeiro ele teve um caso com Patrícia, utilizando a chácara que era do pai de Tarsila como esconderijo. Depois que a moça engravida, ele arma o casamento entre Pagu e um rapaz que não tem nada a ver com a história. O nome do "noivo" era Waldemar Belizário, um pintor sem um tostão furado que morava nos fundos da casa de Oswald e Tarsila. A cerimônia de fachada acontece. Oswald ainda teve a desfaçatez de posar de padrinho, ao lado de Tarsila, em pleno altar.
a
Para todos os efeitos, Pagu e Belizário iriam de carro até Santos, pegar um navio para Paris e ali passarem a lua-de-mel. Mas, na metade do trajeto, Oswald de Andrade está esperando em outro automóvel. Belizário fica por ali mesmo, escondido em uma pensão qualquer, enquanto Andrade e Pagu seguem para a Bahia.
a
Só aí Tarsila, a sociedade paulistana e toda a torcida do Flamengo descobrem caso, a farsa e a fuga. Ô cabra frouxo.
a
Entendam, eu não estou tirando Pagu da reta. Nada disso. Ela também contribuiu com sua dose de canalhice nessa trama, principalmente porque era amigona da Tarsila. Quisesse ficar com Oswald tudo bem. Mas armar um plano de novela das sete ruim e ainda convidar Tarsila para madrinha de casamento só para fugir com o marido dela, é demais.
a
Porém Tarsila era uma mulher que sabia das coisas. Elegantíssima, ela recolheu-se discretamente para chorar sua dor e, ainda nos anos de 1930, conheceu o escritor Luís Martins, com quem viveu por quase 20 anos. Mas isso é outra história.
a
Quando voltaram da Bahia, Pagu e Oswald casaram-se formalmente e ela deu à luz um menino, que recebeu o curioso nome de Rudá Poronominare Galvão de Andrade. Isso mesmo. "Poronominarezinho, passa pra dentro, meu filho, não pega essa friagem". Tadinho. Ambos são termos indígenas, Rudá designa o deus do amor e Poronominare está relacionado a um ser malicioso, que aposta no humor. Vamos combinar? A cara do Oswald um trem desses. Pelo menos Rudá dá para usar sem sustos.
a
Juntos eles produziram mais frutos. A quatro mãos eles escrevem o "Romance da época anarquista" ou "Livro das horas de Pagu que são minhas" (adorei esse segundo título), também ingressam em dupla no Partido Comunista e começam a editar o jornal "O homem do povo". No periódico, Pagu escreve uma coluna sobre a transformação do papel feminino e publica uma história em quadrinhos.
a
Mas o ano de 1931 preparava reviravoltas para nossa protagonista. Ela participa de uma manifestação operária em Santos e é detida pela polícia, o que a torna a primeira mulher presa por razões políticas no Brasil. Pelo menos em termos oficiais.
a
Esse contato direto com os dramas operários e a experiência com a repressão a marcaram. Pagu muda-se para um bairro pobre no Rio de Janeiro e começa a trabalhar como laterninha de cinema e tecelã, experimentando na pele o cotidiano urbano dos mal remunerados. Até que ela adoece e Oswald vem em seu socorro.
a
No ano seguinte, Patrícia publica "Parque industrial", o primeiro romance proletário do Brasil. Uma obra explosiva, de acordo com a crítica da época. Entretanto, o Partido Comunista é categórico e a autoria é atribuída a uma tal Mara Lobo, um pseudônimo mais seguro.
a
Porém Pagu queria mais. no final de 1932 ela iniciou uma viagem que passava pelo Rio de Janeiro, Belém, Califórnia, França, Alemanha, Polônia, Japão, China e Rússia. Conheceu quase todo mundo importante da época, inclusive Freud. No pagu.com.br, consta que ela virou chapa do último imperador da Manchúria (aquele do filme de Bertolucci) e passeava com ele de bicicleta pelos corredores do palácio. Aliás, foi lá que ela conseguiu as primeiras sementes de soja plantadas no Brasil.
a
Para bancar a viagem, ela escreve como correspondente para jornais brasileiros e franceses, além de atuar como tradutora de filmes. Na França, também participa de protestos operários e é presa três vezes. Quase é deportada para a Alemanha nazista, onde viraria churrasquinho pelo currículo comunista. É salva por um triz pelo embaixador brasileiro.
a
Muitas aventuras depois, Pagu volta para a terrinha, mas a vida não pode mais ser a mesma, após um ano fora. O casamento com Oswald vai para o espaço. Rudá, que ficara com o pai durante a viagem, continua sob a proteção paterna.
a
Pagu retorna à militância, com mais vigor ainda. É presa no levante comunista e condenada à dois anos de prisão, no Rio de Janeiro. Mas (ora, ora) antes de cumprir os 24 meses, foge e é declarada perigosíssima pelo governo Vargas. Recapturada, amarga nova pena. Ao todo, Pagu foi presa 23 vezes durante a vida.
a
Mas ainda tem mais. A terceira parte dessa história ainda vem por aí. Só então chegaremos ao cerne desta meada.
a
Fontes: Paulo Celso da Silva em "Oswald de Andrade e Patrícia Galvão: dois corações e uma revolução"
aaaaaaiMaria Isabel Pereira
aaaaaaipagu.com.br
aaaaaaitarsiladoamaral.com.br
aaaaaaiWikipédia
a
a
No capítulo de hoje:
a

Pagu, nos anos 1930, com Oswald e o filho.
a

José Oswald de Sousa de Andrade (1890-1954) foi escritor, ensaística, dramaturgo e um dos precursores do modernismo no Brasil. Autor dos importantes "Manifesto da Poesia Pau Brasil" e "Manifesto Antropófago", publicou cinco livros de poesia, quatro romances, várias revistas e três peças de teatro. Sua obra influenciou criadores durante pelo menos cinco décadas. É um dos meus canalhas favoritos. Na foto com a sexta e última esposa, Maria Antonieta d´Alkmin, e os filhos do casal.
a

Tarsila do Amaral (1886-1973) era pintora e desenhista. Produziu pelo menos 83 quadros importantes, com destaque para o Abaporu, pintado em 1928 como presente de aniversário para Oswald de Andrade. Estima-se que seja a tela brasileira mais valorizada no mercado de arte mundial. A obra de Tarsila inspirou dezenas de modernistas, sendo referência obrigatória quando o assunto é produção pictória.
a

Rudá (Poronominare Galvão) de Andrade (1930-janeiro de 2009) foi cineasta, professor e escritor. Estudou na Itália e ajudou na fundação do curso de Cinema da USP, onde lecionou durante uma década. Publicou as obras completas de Oswald de Andrade e o livro de autoria própria "Cela 3", sobre as prisões na Europa. Por essa obra, ganhou o prêmio Jabuti de Literatura, em 1983. Dirigiu o documentário "Pagu", sobre a mãe, em 2001.
a
. . . . .
a

15.10.09

a
O fio e a meada vão para dentro da sacola de viagem e só voltam semana que vem.
a
Sejam crianças boazinhas e comportem-se.
a
a
a
Foto Ana Pintaa
a
. . . . .
a

13.10.09

a
Eu "pagu" para ver aaaa*iP(arte) 1 *
a
Era para ser um post comum, mas eu fui puxando o fio, um fiozinho de nada e, quando vi, era uma meada daquelas, do tipo que se pode dividir em três e ainda sobra material. Portanto, senhores, começamos a historinha por agora e terminamos sabe Deus quando.
a
Nossa heroína de hoje ganhou o bonito e sonoro nome de Patrícia Rehder Galvão e teve uma vida que equivale a pelo menos três novelas e dois filmes.
a
Nascida em 1910, ela ainda era criança quando estourou a Semana de Arte Moderna, em 22, mas, pouco depois, descobriu-se que Patrícia encarnava em carne, osso, pernas, seios e cérebro a irreverência bem-humorada dos modernos paulistanos.
a
Bastaram apenas mais três anos (1925) para que a jovem debutante, então frequentadora da tradicionalíssima Escola Normal da Capital, desfilasse ousadamente em público, fumando em plena rua e de cabelos curtos demais para os padrões da época. Atenção para a melhor parte: de blusinhas transparentes e minissaias. De nada, classe masculina, não tem de que. Olha que eu não estou nem citando os palavrões e o comportamento, digamos, extrovertido da moça. "Obscena" era o adjetivo que ela mais ouvia.
a
Virou fã dela? Eu também.
a
Aos 18, Patrícia já tinha ingresso vip para uma das sacudidelas mais legais dos anos 20, na verdade de toda a história do Brasil, o movimento antropofágico (veja abaixo, importante). Tá achando muito? Então aguenta essa. Ela era simplesmente a MUSA do negócio. A garota tinha it, camaradas. It não se aprende na escola, não se dá, não se rouba e nem se copia. Eu sei, a vida é injusta.
a
Obviamente, não seria como "Patrícia", este nome tão fidalgo-romano-aristocrático, que a nossa espevitada entraria para a história. Nãããã! Clássico demais. O poeta modernista Raul Bopp, um dos primeiros a se render aos encantos da moça, cometeu um leve engano ao apelidá-la de "Pagu", junção das iniciais de Patrícia "Goulart" (lembre-se o sobrenome correto era Galvão). Ô Bopp, às vezes a gente acerta quando erra, né? "Pagu" era tão a carinha dela que pegou de imediato.
a
Verdade que o poema que "Coco de Pagu", do próprio Bopp, também ajudou.
a
a
Pagu tem os olhos moles
Olhos de não sei o que
Se a gente está perto deles
A alma começa a doer
Ai Pagu
Dói porque é bom de fazer doer
a
a
Talvez essa tenha sido a primeira vez que ela inspirou diretamente um criador de renome (ok, concordo com você, foram uns versinhos "bastante mais ou menos"), mas estava longe de ser a última ocasião.
a
Pagu, meus caros, estava só começando. Ela viraria a cabeça dos artistas e do governo, do Partido Comunista e dos plantadores de soja, de Deus e do mundo, desafiando o destino até virar filme.
a
No próximo capítulo, ela conhece um dos casais mais do balacobaco do universo, a pintora Tarsila do Amaral e o escritor porralouquíssimo Oswald de Andrade. Também inicia a própria atuação artística e registra seu nome na história política do País.
a
a
Vai perder?
a
a
Fontes: Paulo Celso da Silva em
"Oswald de Andrade e Patrícia Galvão: dois corações e uma revolução"; Maria Isabel Pereira; e a boa e velha Wikipédia.
a
a

No episódio de hoje
a

Patrícia Rehder Galvão, a Pagu. Escritora, jornalista, realizadora teatral, tradutora, agitadora cultural, musa e ovelha negra. Meada para mais de metro.
a

Raul Bopp foi poeta e diplomata brasileiro, participante da Semana de Arte Moderna, de 1922. Publicou quatro livros de poesia e seis de prosa. De acordo com a crítica, sua obra mais importante foi Cobra Norato, que trata da Amazônia e das raízes da cultura brasileira. A foto está ruim, né? Desculpem, foi o máximo que consegui.
a

Movimento Antropofágico. A lógica dos criadores era a seguinte: vamos mastigar o mundo, triturar as influências, deglutir o que nos interessa e incorporar ao corpo o que nos encanta e convém. Em outras palavras, em vez de renegar o impacto das culturas estrangeiras (como a européia e a africana), os adeptos defendiam que elas fossem transformadas em algo nosso, de certa forma, abrasileirando-as. Nada de imitar o que os cara-pálidas mandam, mas de apropriar-se dos conteúdos ao bel prazer verde-amarelo. O termo antropofagia vem do grego, "anthropos" significa "homem" e "phagein" quer dizer "comer.
a
. . . . .
a

10.10.09

a
Faróis antigos
(postagem sugerida por Fabio Pantoja)
a
Coitada da namorada do Herbert! Ela saiu com o vocalista do Paralamas do Sucesso, cheia de amor para dar, mas já na moto, a caminho do restaurante, ouviu um pedido nada gentil: ficar calada, sem dar um pio. É que Vianna estava com a letra e a melodia de "Laterna dos Afogados" na cabeça, qualquer distração maior e puf!, tudo estaria perdido. Assim que chegaram ao lugar, em Ipanema, o garçom veio anotar o pedido. "Papel e caneta, rápido!", exigiu Herbert, apressadamente. "Vai ser uma noite daquelas", provavelmente imaginou o pobre funcionário. Mal sabia ele, mal sabia ele...
a
"Laterna dos afogados" é um bar descrito no romance Jubiabá, de Jorge Amado. Um ponto de encontro para os desgarrados da época, ou seja, escravos, capoeiristas e boêmios em geral. Mas também é uma referência direta à saga das mulheres de pescadores do litoral nordestino. Há décadas atrás, em localidades sem energia elétrica, se o tempo virasse, o mar tornava-se extremamente perigoso para os jangadeiros. Nesses dias, as esposas, mães e filhas reuniam-se na praia, segurando laternas acesas para que seus homens soubessem em que direção nadar, em casos de naufrágio. Às vezes nem precisava tanto, bastava a lua estar encoberta, podia ser tão somente o pedido de um navegador inseguro.
a
Uma noite longa para uma vida curta. Aquela fila de saias na praia, em cada mão uma lamparina, em cada voz uma prece.
a
Quando eu digo que Herbert rocks, tem um montão de gente que não capta o porquê.
a
a
Quando tá escuro
E ninguém te ouve
Quando chega a noite
E você pode chorar
a
Há uma luz no túnel
Dos desesperados
Há um cais de porto
Pra quem precisa chegar
a
Eu estou na lanterna dos afogados
Eu estou te esperando
Vê se não vai demorar
a
Uma noite longa
Pra uma vida curta
Mas já não me importa
Basta poder te ajudar
a
E são tantas marcas
Que já fazem parte
Do que eu sou agora
Mas ainda sei me virar
a
Eu tô na lanterna dos afogados
Eu tô te esperando
Vê se não vai demorar
a
a
Fontes: Vinho Magazine
iiaaiiiiiialanternadosafogados.blog.terra.com.br
a
a
Ágatha, a jornalista que registra o Cotidiano das Cidades como ninguém, enviou nos comentários do post anterior o seguinte depoimento:
a
"No último sábado, Oswaldo Montenegro cantou VB (Vapor Barato) em homenagem a uma jornalista que insistiu em perguntar sobre o fim do seu casamento com Paloma Duarte. A interpretação foi arrebatadora!"
a
Em primeiro lugar, repare bem, eis uma historinha de bastidores narrada por uma testemunha ocular! Estamos quentes, estavamos aí. Já temos fontes de primeiro grau.
a
Em segundo, confesso que tenho certa implicância com Oswaldão. Lá no fundo, acho que ele é muito valsinha pro meu rock'n'roll. Maaaassss, ele ganhou muitos pontos comigo com esse episódio. Ah, ganhou...
a
Fonte: Ágatha, diretamente de Goiânia
a
a
No capítulo de hoje:
a

Herbert (Lemos de Sousa) Vianna é vocalista, guitarrista e compositor. Em 1982 integrou-se à banda Os Paralamas do Sucesso, ao lado de Bi Ribeiro e João Barone, em Brasília. Vianna sofreu um gravíssimo acidente de ultraleve em 4 de fevereiro de 2001, que acarretou na morte da esposa, a inglesa Lucy Needham. O músico ficou em coma e sofreu paraplegia, além de perda parcial de memória. Após uma gradual recuperação, voltou aos palcos e gravou mais quatro CDs. No documentário "Herbert Bem de Perto", o diretor Roberto Berliner conta a história de superação do músico, que é pai de Hope, Luca e Phoebe.
a

Oswaldo (Viveiros) Montenegro é compositor desde os oito anos e aos 13 já venceu seu primeiro festival de música. Ele também é intérprete, escritor, autor e diretor teatral. Já lançou quase 40 CDs/DVDs e 16 espetáculos musicais. Eu tenho vontade de sacudi-lo às vezes, mas não é culpa dele, o problema é comigo.
a

"Lanterna dos Afogados" foi lançada no CD "Big Bang", quinto álbum de estúdio dos Paralamas, há exatos 20 anos.
a
a
Hoje tem foto extra de Herber Vianna:

a
Porque sim.
a
. . . . .
a

7.10.09

a
Eu sonho com leite. Serve para alguma coisa?*
a
Walter Salles Júnior simplesmente não acreditou nos próprios olhos. Ali, diante dele, na vitrine da livraria, estava estampada na capa de um livro exatamente a cena com que sonhara na noite anterior: um casal abraçado na praia, tendo ao longe um navio encalhado. Incrível, porque ele jura até hoje, de pés juntos, que jamais vira a imagem até então. De coincidência em coincidência, o sinal lhe parecia óbvio; só restava fazer um filme a respeito.
a
Assim nasceu um dos longa-metragens brasileiros mais elogiados pela crítica nos anos de 1990, porém quase ignorado pelo grande público. "Terra Estrangeira" conta a história de Paco (Fernando Alves Pinto) e Alex (Fernanda Torres) a partir de um epísódio recente e dramático da vida política nacional - o confisco dos investimentos na caderneta de poupança pelo governo Collor. Paco deixa o Brasil, não por imposição da didatura militar, a razão mais frequente nas décadas anteriores, mas por um "exílio econômico", nas palavras do diretor. Em Portugal, ele encontra a mocinha e ali vivem uma trama de solidão, fruto do desenraizamento, da sensação de não ser daqui, nem dali.
a
Obviamente a escolha por Portugal não foi à toa. Além de o país ser a porta de entrada para a Europa, utilizá-lo como locação atribui ao navio encalhado ares de "caravela às avessas". Antes foram eles, agora somos nós.
a
Mas não se enganem, caríssimos, essa não é uma narrativa alegrinha que vai condecorar cada imigrante corajoso com os louros do "sonho americano". No, my friends. É por isso que quando Fernanda Torres começou a cantarolar uma velha canção triste, sentadinha em uma escada da produção, comendo a quentinha do almoço, Walter Salles Jr parou e a olhou fixamente. "O que foi?", inquiriu a atriz. "Nada, eu estava assistindo ao final do filme", ele respondeu. A canção que ela entoava era Vapor Barato, uma belíssima obra sobre cansaço e partida, composta na década de 70.
a
(Pausa para Vapor Barato)
a
Eu amo essa música desde... peraí, xô pensar... ah, sim, desde SEMPRE. Na barriga da minha mãe eu já devia saber a letra e, antes de eu morrer, quando o verdugo perguntar minhas últimas palavras, eu serei obrigada a gritar: "Ó sim/Eu estou tão cansada/ Mas não pra dizer/ Que eu tô indo embora...".
a
Desculpem. Foi mal, leitores, passou.
Voltando ao filme.
a
Dito e feito. Não é que Walter improvisa tudo e constrói o fim a partir dali? No inspirado final da película, o diretor mostra Alex dirigindo em uma auto-estrada, com Paco morrendo em seu colo, em fução de um tiro. Fernanda Torres chora e canta Vapor Barato, prometendo levar o rapaz para casa. Nisso, a câmera lentamente distancia-se do veículo e mostra a cena à distância, enquanto ouve-se a voz da atriz sendo substituída pela de Gal Costa, na clássica interpretação da música.
a
Opa, mas tem um detalhe. Quando eu falo "interpretação clássica", eu quero dizer literalmente. Porque antes de se tornar essa cantorazinha burocrática dos dias de hoje, Gal Costa já foi visceral, já fez muito fã rasgar a roupa em público. Crianças, ela era um negócio! E Salles foi felicíssimo em ignorar versões mais recentes de Vapor Barato e preferindo a gravação dos anos 70 (ho-ho-ho! pr'ocê Waltinho, ho-ho-ho!)
a
E foi assim que nasceu o projeto e o fim de Terra Estrangeira.
a
Fontes: Programa Vitrine (TV Cultura)
aaaaaaicinereporter.com.br
a
a
PS1:
(cantarolando) Contei o final do filme! Contei o final do filme! O mocinho morre no final! Sempre quis fazer isso.
PS2: Passou coisa nenhuma. "Ó minha honney baaabyy..."
aa
a
a
No episódio de hoje:
a

Walter Salles Júnior é um dos cineastas mais premiados do País, tendo filmado 16 títulos, entre eles Central do Brasil, O Primeiro Dia, Abril Despedaçado, Diários de Motocicleta e Linha de Passe. É irmão do também diretor João Moreira Salles. Filho de um embaixador e banqueiro, viveu vários anos fora do Brasil durante a infância e vida adulta.
a

Fernanda (Pinheiro Monteiro) Torres é atriz e estreou no cinema aos 17 anos. Atuou em 26 filmes e em novelas, especiais e seriados de TV. O papel em "Eu sei que eu vou te amar" (1986) , de Arnaldo Jabor, rendeu a ela os prêmios de melhor atriz nos Festivais de Cinema de Cannes e de Cuba.
a

Terra Estrangeira (Brasil, 1995) tem direção de Walter Salles Jr, com colaboração de Daniela Thomas. No elenco, estão Fernando Alves Pinto, Fernanda Torres, Luis Melo, Alexandre Torres e Laura Cardoso.
a

Vapor Barato foi composta por Jards Macalé e Waly Salomão, mas até Zeca Baleiro já deu pitaco nela. VB se tornou nacionalmente conhecida na voz de Gal Costa, que a apresentou na turnê "Fatal" e no álbum "Fa-tal- Gal A Todo Vapor", de 1971. A música voltou a fazer sucesso em 1996, com o grupo O Rappa.
a
a
aa
Sobre o título:
* Porque, além de tudo, essa criatura é alérgica à laticínios.

a
. . . . .
a