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"Depois das rajadas de tempestade,
colaremos nas retinas úmidas os últimos retalhos de azul"
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(Patrícia Galvão)
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"Pagu" para ver - P(arte) 3
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Quando terminamos a parte dois, mencionei que Pagu seria presa mais de vinte vezes ao longo da vida. Em muitas dessas ocasiões, a polícia extrapolou completamente os limites de civilidade e submeteu a jornalista à tortura. Patrícia chegou ao ponto de ser internada em um hospital psquiátrico após uma das detenções, tal o estado de debilidade física e emocional após o "jeitinho" light e gentil dos investigadores. Lembrando que, na época, o tratamento médico era à base de choques elétricos...
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Na prisão, Pagu estreita os laços com Geraldo Ferraz, jornalista e ativista político que também participou da Semana de Arte Moderna. Várias discussões sobre "O Capital" depois, surge um romance e Pagu encontraria em Geraldo o companheiro que precisava para seguir na luta e na vida. Em 1941, eles tiveram um filho, que ganhou o nome do pai.
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Mas vocês acreditam realmente que Patrícia ia ficar quietinha, em casa, trocando fraldas? Nem a pau, Juvenal.
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A moçoila aproveitou a ocasião para rodar a baiana com o Partido Comunista. No que tinha toda razão, diga-se de passagem. O partidão resolveu porque resolveu apoiar a didatura stalinista na Rússia e Pagu não tinha passado tantos maus bocados para apoiar um chefe absolutista. Ah, mas não mesmo. A desilusão dela com os camaradas de Moscou tinha começado naquela viagem de volta ao mundo, iniciada em 1931. Na ocasião, ela mandou um postal para Oswald em que declarava, categórica: "Isto aqui é jantar frio sem fantasia. Tou besta".
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Além do mais, o PC era careta até o última nota do hino e condenava rispidamente as posturas liberais de Pagu. Era areia demais para o caminhãozinho deles. Juntando tudo isso, o resultado foi que ela chutou o pau da barraca e as canelas de muita gente, sem clemência, deixando o comunas a ver navios.
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Equanto isso, na Sala de Justiça, Patrícia publica seu segundo romance, "A Famosa Revista", em parceria com o marido, novamente com temática social. Depois escreve para o suplemento literário do jornal O Diário de São Paulo, torna-se crítica de arte e produz o manifesto "Verdade e Liberdade". Pagu cria também contos policiais para a revista Detective (com direção luxuosa de Nelson Rodrigues) e tenta eleger-se para a Assembléia Legislativa de São Paulo pelo Partido Socialista Brasileiro, mas sem sucesso.
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Crianças, essa mulher não parava. Nos anos 1950, ela descobre uma nova paixão: o teatro. Pagu entra para a Escola de Arte Dramática e bota a mão na massa. Ela é responsável pela tradução e montagem de textos estrangeiros importantes, inclusive de James Joyce. Um bom exemplo é a a peça "Fando e Lis", considerada a estréia mundial do famosíssimo dramaturgo espanhol Fernando Arrabal.
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Aliás, Pagu tinha mesmo um pé no mapa mundi. Em "Antologia da Literatura Estrangeira", ela traduz pela primeira vez no Brasil grandes autores da poesia e da prosa internacionais. Em Santos, cidade que cativou seu coração desde os tempos do falso casamento armado por Oswald, Patrícia arregaçou as mangas e quis fazer do lugar um ativo centro de produção cultural.
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Porém, um desafio se impôs na vida de Pagu, muito mais cruel que o Partido Comunista, que a polícia e que os conservadores juntos. O câncer.
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Ao descobrir a doença, ela viaja a Paris, em busca de uma cirurgia salvadora, mas suas expectativas são frustradas pela dura realidade. Nossa heroína chega às raias do desespero e tenta o suicídio, que também não dá certo. O jeito era mesmo enfrentar a doença.
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De volta ao Brasil, ela ainda tem tempo de encontrar-se com Jean-Paul Sartre e Eugéne Ionesco, em São Paulo e no Rio, além de traduzir e dirigir a peça "A Filha de Rappaccini", de Octavio Paz, em Santos. É então que o destino sentencia o encerramento do espetáculo.
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Como você e eu sabemos, no fim, toda boa história deixa um gosto de quero mais. Pagu falece em 1962, com apenas 52 anos, deixando ainda uma porção de coisas por realizar e curtir.
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Legado
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"Parque Industrial" foi publicado também nos Estados Unidos, em 1994, pela editora da Universidade de Nebrasca. A "Famosa Revista" (1945) permanece fora das prateleiras atuais. Já os contos policiais que Patrícia escreveu para a Detectiva, foram publicados em 1998, sob o título "Safra Macabra".
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No pagu.com.br, existem alguns exemplares das centenas de textos que ela publicou em jornais e revistas em mais de três décadas dedicadas ao jornalismo. É muito interessante para que estudantes, jornalistas e curiosos em geral saquem o estilo da época e de Pagu, em especial.
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Há cinco anos, foi aberta uma exposição de desenhos e lançado o livro "O caderno de croquis de Pagu e outros momentos felizes que foram devorados", reunindo 22 peças da produção gráfica da jornalista, concebidas entre 1929 e 1930. A maioria com legendas escritas à mão pela própria Patrícia.
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Porém, mais do que isso, lembremos que este fio da meada tem como marcador o termo "musa" (confira no final). Eis que nos resta agora fazer um inventário não só do que Pagu produziu, mas também do que ela inspirou. É tanta coisa que até fiz uma listinha para facilitar a leitura. Estão diretamente relacionadas à Pagu as seguintes obras, agrupadas por categoria:
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Música
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* "Pagu", de Rita Lee e Zélia Duncan. Particularmente, gosto bastante da letra. Ela não conta a história de Patrícia Galvão, mas expressa irreverência, força e insubmissão femininas muito características de PG. O bacana também é que as referências da canção são absolutamente contemporâneas. Confira em
http://www.youtube.com/watch?v=5CK620UTg5o.
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* Criado em 2004, o Trio Pagu é um grupo que reinterpreta clássicos da bossa nova e da MPB, bem como apresenta composições inéditas, de autoria própria.
aLivros
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* "Romance da época anarquista" ou "Livro das horas de Pagu que são minhas", de Oswald de Andrade com/para Patrícia.
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* "Pagu vida-obra" (1982), de autoria de Augusto de Campos. Editora Brasiliense.
a* "Pagu: Patrícia Galvão" (1999), escrito por Lúcia Teixeira. Editora Unisanta.
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* "Paixão Pagu: a autobiografia precoce de Patrícia Galvão", de Stella Cameron. Editora Agir.
a* "Geraldo Ferraz e Patricia Galvão" (2005), obra de Juliana Neves. Editora Annablume.
a* No livro "Moscouzinha" brasileira: cenários e personagens do cotidiano operário de Santos" (2007), de Rodrigo Rodrigues Tavares, Pagu está entre os personagens de destaque. Editora Humanitas.
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* Também há várias outras obras literárias em que Pagu é citada, porém como personagem secundária.
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Filmesa* "Eternamente Pagu", de 1987, com direção de Norma Bengell. Patrícia foi vivida por Carla Camurati.
a* Vídeo-documentário "Pagu, Livre na Imaginação, no Espaço e no Tempo" (2001), com direção de Rudá de Andrade.
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* Documentário "Eh, Pagu!, Eh!" (1982), de Ivo Branco.
a* "O Homem do Pau Brasil" (1982), de Joaquim Pedro de Andrade, trata da vida de Oswald de Andrade. Pagu, claro, está lá.
aTV
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* A minissérie "Um Só Coração", da Rede Globo, retratou os principais artífices do movimento modernista da década de 1920. Miriam Freeland interpretou a jovem Patrícia Galvão.
aInstitutoa* O Instituto Patrícia Galvão é uma organização não-governamental criada em 2001, em São Paulo, por um grupo de feministas, com o objetivo de desenvolver projetos que divulguem e defendam os direitos da mulher, sobretudo através da utilização dos meios de comunicação de massa.
aCentro de Estudos
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* O Centro Unisanta de Estudos Pagu (CEP) é ligado à Universidade Santa Cecília e tem a meta de tornar-se um espaço de fomento à cultura e de preservação da memória de Patrícia Galvão. Promove exposições e lançamentos de obras literárias sobre a musa.
aRevista Acadêmica
a* "Cadernos Pagu" é uma revista semestral do Núcleo de Estudos de Gênero da Unicamp, que visa à consolidação dos estudos de gênero. O primeiro número saiu em 1993.
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Desenhos e pinturas
a* De autoria de nada menos nada menos que Cândido Portinari.
aDesfile de escola de samba
a* A mais antiga escola de samba de São Paulo, a X-9, levou ao sambódromo desfile com enredo inspirado em Pagu, em 2006.
aProgramação comemorativa
a* Por ocasião do aniversário de 95 de nascimento de Pagu, a Prefeitura de São Paulo e parceiros promoveram o lançamento de livros, exposições de fotos, desenhos e textos de Patrícia Galvão. Um peça teatral sobre a vida dela também foi encenada.
aModa
a* A "Dasdores" criou uma linha de produtos têxteis com estampas inspiradas no caderno de croquis de Pagu (http://coisasdasdores.blogspot.com/2008/07/da-pagu.html).
a* O bazar e brechó Arcoverde disponibiliza jóias com imagens de Patrícia, como camafeus, pertencentes à linha "Mulheres que nos inspiram" (http://lovingbags.com/).
aFesta
a* Em 2005, o Museu da Imagem e do Som de São Paulo sediou uma festa a fantasia, em que os convidados tinham de vestir roupas das décadas de 1910, 1920 ou 1930, em homenagem à Pagu.
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PS: Devido ao grande volume, não foi possível identificar quantas poesias e trabalhos acadêmicos foram produzidos sobre Patrícia Galvão.
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Fontes: Paulo Celso da Silva em "Oswald de Andrade e Patrícia Galvão: dois corações e uma revolução"
aaaaaaiMaria Isabel Pereira
aaaaaaipagu.com.br
aaaaaaitarsiladoamaral.com.br
aaaaaaiWikipédia
aaaaaaiInstituto Patrícia Galvão
aaaaaaiUniversidade Santa Cecília (Unisanta)
aaaaaaiUnicamp
aaaaaaiRevista Speculum
aNo episódio de hoje
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Pagu, imortalizada por Portinari, em quadro de 1933.
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Geraldo Ferraz foi escritor, jornalista e crítico literário. Trabalhou em grandes periódicos de São Paulo e fundou os jornais "O Homem Livre", "Vanguarda Socialista" e "Correio da Tarde". Publicou quatro livros, com destaque para Doramundo (1954), que ganhou uma premiada versão para o cinema pelas mãos de Joaquim Pedro de Andrade.
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Geraldo Galvão Ferraz é o segundo filho de Patrícia Galvão. Ele também é jornalista e crítico literário. Atualmente coordena o Centro de Estudos e Documentação Pagu da Universidade Santa Cecília (Unisanta), em Santos
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